O JIPE DOS PRACINHAS

Jeep Ford 1942: o modelo que foi do Exército Brasileiro na 2ª Guerra
O carro deveria ser leve e resistente, pois eram transportados por cargueiro até território inimigo e desembarcados
Foto: Antigo Motors/Jocelino Leão
Antigo Motors/Fernanda Lopes
Novembro de 1944. Brasileiros acostumados ao sol e samba, lutam para sobreviver em meio à neve e gritos de horror na Itália fascista. Neste mês tentam, pela primeira vez, tomar a região de Monte Castello, que junto às demais tropas aliadas venceriam meses depois, em Fevereiro de 1945. “A Força Expedicionária Brasileira – FEB contou com Jeeps, que serviram como cães fiéis, ultrapassando as mais diversas condições sobre quatro rodas. O Jeep Ford GPW 1942 da matéria pertenceu ao Exército Brasileiro durante a 2ª Guerra”, conta a pesquisadora do Portal Antigo Motors.
“Comprei o veículo de um arquiteto em 1988 e este o adquiriu em um leilão do Exército, em 1952. Ele serviu na instrução de soldados no curso de material bélico na Academia Militar de Realengo, hoje Agulhas Negras. Está cerca de 90% original”, conta orgulhoso o proprietário deste histórico exemplar. A criação do modelo para finalidades gerais, “general purpose” em inglês, cujas letras “G” e “P” soam “jeep” dando origem ao nome, surgiu de uma solicitação do Exército Norte Americano para a criação de um veículo prático de guerra.
O carro deveria ser leve e resistente, pois eram transportados por cargueiro até território inimigo e desembarcados. Deveriam ser de fácil manutenção, ter tração 4x4, capacidade para 3 passageiros e uma metralhadora, transporte de carga de 250kg, daí decorrendo sua designação oficial de “Caminhão Utilitário para finalidades gerais, ¼ ton., 4x4”, velocidade máxima em torno dos 80km/h e mínima de 5km/h, o equivalente ao caminhar de um soldado, entre outros predicados. O projeto original é da American Bantam Car Company, aperfeiçoado pela Willys Overland, que fizeram parceria na fabricação. Em 1941 a pressão era tamanha, que a participação da Ford como segunda montadora se tornou inevitável para atender o mercado, seguindo padrão Willys.
Já em janeiro de 1942, a Ford começou a produção dos GPWs (G –governo, P - distância entre eixos de 80 polegadas e W- Willys). “Embora houvesse um padrão a seguir, os veículos feitos pela Ford e Willys tinham suas diferenças, como o chassi de perfil retangular (em U invertido) e para-choque dianteiro com três furos no caso Ford”, nota pesquisadora do Portal Antigo Motors. A produção do modelo foi até Dezembro de 1945, já com o fim da guerra.
Na ocasião da compra, o arquiteto vendeu sob uma condição: que assumisse o compromisso de restaurá-lo sem modificar suas características originais. Cumpriu a promessa e o levou para mostrar. O antigo dono ficou emocionado.Hoje é figura constante em desfiles militares oficiais. Fascinado por história, o condutor deste jeep militar conta algumas aventuras que viveu, “tudo aconteceu por causa deste carro”.
Nesse clima de preservação, o veículo exibe pintura inspirada no Primeiro Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira durante a segunda guerra mundial. Desmontou o carro todo em Novembro de 1988, ficando pronto para homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira), em Abril de 1989. Transportou expedicionários, patronos e muita gente importante. Mas o mais especial foi a participação de seu proprietário em homenagens aos expedicionários na Itália e de um vídeo documentário, em fase de finalização, sobre a atuação brasileira na guerra.
Os veículos tiveram papel importante na participação brasileira na 2ª Guerra, diz o motorista, narrando os perrengues sofridos pelos heróis. “Passaram fome, frio, destruição, famílias arrasadas, miséria e violência... Até hoje os italianos valorizam a conquista do modo de vida livre. Só quem passou por isso sabe o peso que tem”, afirma. E os jeeps seguiram levando munição, armamento, feridos, cadáveres, suprimentos e outros ítens. “Muita gente não tem consciência dessa importância”, lamenta.
Em abril de 1945, as tropas aliadas cercaram os inimigos e finalizavam a libertação da Itália. Em abril de 2010 um evento comemorou o feito e refez o trajeto percorrido pelos americanos, todos devidamente caracterizados, para encenar na linda cidade de Verona, aquela de Romeu e Julieta, o episódio histórico. Seu atual proprietário esteve lá. Emocionante.
“Os brasileiros ficaram conhecidos como libertadores, por terem subjugado os tedescos”, conta. Até hoje as crianças italianas aprendem na escola a Canção do Expedicionário, bem diferente das brasileiras. Existe um movimento de resgate da história militar do Brasil na 2ª Guerra, especialmente na região sul e sudeste. Mas deve demorar até surtir efeito, infelizmente.
Enquanto isso, o Jeep Ford GWP de 1942 segue firme e forte. “É um carro de serviço, jipes não eram tratados a pão de ló. Faço trilha, piso no banco, é um carro para usar”, diverte-se. E o prazer de dirigir? “Na volta, vou tirando o pé do acelerador para demorar mais para chegar em casa”, revela. Com tanta história em seu DNA de lata, nós do Portal Antigo Motors faríamos o mesmo.
Agradecimentos ao Jeep Clube do Brasil (www.jeepclubedobrasil.com.br), Associação Brasileira de Preservadores de Veículos Militares - ABPVM, Marco Cesar Spinosa e Julio Florez.
Para fotos outras exclusivas, acesse o Portal Antigo Motors.

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