Pacificar e punir - Folha

Política de reconquista de áreas ocupadas pelo tráfico avança no Rio, mas pode ser comprometida se corrupção policial não for enfrentada
Uma operação conjunta das forças de segurança pública do Rio de Janeiro e da Polícia Federal culminou na madrugada de quinta-feira com a prisão do traficante Antônio Bonfim Lopes.
Chefe da venda de drogas na favela da Rocinha, "Nem", como é conhecido, mantinha dezenas de milhares de moradores desse bairro popular da zona sul carioca como reféns de uma quadrilha criminosa, sob a lei do terror.
A captura, sem dúvida um troféu para o governo fluminense, oferece uma oportunidade para avaliar os avanços da política de combate ao crime e de "pacificação" no segundo Estado mais rico do país.
Anunciam-se para as próximas horas a retomada da Rocinha das mãos dos traficantes de drogas e a instalação da 19ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na capital fluminense. Não se discute o benefício trazido pela presença policial em regiões antes abandonadas pelo Estado.
Ocorre que as seguidas operações de reconquista territorial têm servido para expor antigos problemas da polícia, sem que as necessárias medidas de saneamento sejam tomadas.
Reportagem publicada por esta Folha mostrou que o Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope, foi excluído da ação de cerco à Rocinha e da prisão dos traficantes locais. Há suspeitas, entre policiais federais, de que integrantes da "tropa de elite" tenham sido responsáveis por informar bandidos de planos anteriores.
Oficiais do Bope são acusados de roubar armas encontradas no Complexo do Alemão, após a retomada do conjunto de favelas há um ano, e de vendê-las para traficantes. Alguns de seus integrantes são também suspeitos de participar de saques a casas de moradores. Sabe-se, aliás, que na ocupação daquele complexo, policiais favoreceram a fuga de traficantes.
Ainda estão por ser enfrentados com o necessário rigor a corrupção que prospera na PM e o conluio de parte de seus integrantes com criminosos. Apesar dos avanços das UPPs, o Rio ainda é um dos Estados mais violentos do Brasil. A taxa de homicídios supera a marca de 30 por 100 mil habitantes a cada ano, mais de três vezes o índice de assassinatos de São Paulo.
Detido, o chefe do tráfico na Rocinha afirmou que metade de sua receita com a venda de drogas, estimada em mais de R$ 100 milhões por ano, era repassada a policiais.
É de esperar que a Justiça e o governo do Rio aproveitem as recentes prisões de traficantes para levantar informações sobre a rede de corrupção na PM fluminense. É preciso identificar os comparsas do crime e levá-los a julgamento para que sejam punidos.
Nenhuma política de "pacificação" terá sucesso se a criminalidade dentro da própria polícia não começar a ser combatida de verdade.

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